Saúde mental em tempos incertos
Atualizado: 14 de set.
Nos últimos anos, “saúde mental” deixou de ser um assunto restrito aos consultórios, às discussões acadêmicas, aos livros de psicologia e psiquiatria, e passou a fazer parte das conversas do dia a dia, ganhando destaque também nas mídias.
E não é difícil entender por quê.
O início da década de 20 parece ter produzido uma espécie de ruptura. Falo da pandemia, que nos colocou diante da possibilidade concreta da morte, do isolamento, do medo e da perda. Depois disso, vivemos em um mundo que não voltou a ser exatamente o que era.
Tivemos que lidar com perdas, lutos, medo da doença, isolamento, instabilidade financeira, convívio forçado com nossos mais íntimos desconhecidos — pares, filhos, familiares —, mudanças na rotina e uma experiência muito particular de não saber quando e como tudo aquilo terminaria. É provável que ainda estejamos elaborando muitas dessas marcas.
A educação foi forçada a se adaptar à virtualidade, em realidades absolutamente diversas. O mundo do trabalho sofreu alterações em um nível ainda mais abrangente: A precarização das relações, a insegurança, a informalidade, a cobrança permanente por produtividade e a dificuldade de separar vida profissional e vida pessoal, criaram novas formas de sofrimento. No Brasil, os afastamentos do trabalho relacionados a transtornos mentais chegaram a números recordes nos últimos anos. Nesse contexto, a
atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), em vigor desde maio de 2026, passou a exigir a inclusão dos fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.
Além desses desafios, acompanhamos, em tempo real, guerras, crises econômicas, climáticas e humanitárias, desastres ambientais, tendo que lidar com aquilo que talvez seja o mais difícil de nomear: o sentimento de que estamos adentrando, dia após dia, um futuro para o qual não temos referências e que não sabemos exatamente como será.
A inteligência artificial modifica rapidamente a maneira como trabalhamos, aprendemos, produzimos e nos relacionamos. Não sabemos exatamente o que essas transformações significarão a médio e longo prazo. Não é preciso aderir a cenários apocalípticos para reconhecer que vivemos sob uma quantidade enorme de incertezas.
Nesse contexto, é compreensível percebermos o crescimento de quadros de ansiedade, angústia, insegurança, desmotivação, solidão e, às vezes, uma sensação dolorosa de que a vida perdeu o sentido.

Nessas horas, precisamos lembrar que, às vezes, a vida dói. Perder alguém dói. Separar-se dói. Adoecer dói. Fazer escolhas dói. Frustrar-se dói. Não saber o que vai acontecer dói. Não ter o controle dói. Não ter respostas dói. Tudo isso tem a ver com a condição humana.
Existe um sofrimento que é próprio da existência e que não pode ser transformado em diagnóstico ou tratado simplesmente como um problema a ser eliminado. Mas também não podemos cair no extremo oposto e romantizar o sofrimento. Há momentos em que ele se torna desproporcional, persistente, repetitivo e começa a limitar a vida. Precisamos diferenciar o sofrimento que faz parte da nossa existência daquele que se torna incapacitante.
A medicação pode ser fundamental em muitos quadros de sofrimento psíquico, mas não pode substituir a possibilidade de compreender o que está acontecendo e quais são as circunstâncias desse sofrimento. A medicação pode ser parceira de outras formas de tratamento, mas não precisa ser entendida como o tratamento.
Na clínica, em geral, o que encontro não é alguém que quer deixar de sentir, mas alguém que não consegue compreender ou lidar com o que está sentindo. Pessoas que criam e repetem padrões que as machucam. Que não entendem por que se cobram o tempo inteiro, cansadas de tentar corresponder às expectativas e de se sentirem inadequadas ou incapazes. Pessoas sem prazer, que não conseguem descansar e sentem que estão vivendo no automático e que precisam se defender… Ou as que, diante de
tantas incertezas, começam a não encontrar mais razões para se projetar no futuro.
Por isso a escuta é tão importante. A psicoterapia não deveria ser um lugar para aprendermos a funcionar melhor, mas um lugar para compreendermos melhor a própria vida. Um lugar para nomear o que não conseguimos. Para olhar para a nossa história e reconhecer aquilo que nem percebemos, mas que está sempre acontecendo, novamente. Lugar de redescobrir desejos que ficaram esquecidos, abandonados, e
construir possibilidades.
Talvez uma parte importante da saúde mental hoje, seja conseguir olhar para o mundo com seus perigos reais, sem permitir que o medo anule nossos sonhos e nossas esperanças. Saúde mental não é viver sem dor. É poder encontrar recursos para atravessá-la.
Como humanos, somos impotentes. Não podemos controlar as guerras, nem as mudanças climáticas, nem saber exatamente o que a inteligência artificial fará com o mundo do trabalho e com as relações humanas. Não temos como garantir que não haverá novas pandemias, entre tantas outras questões que nos confrontam com as nossas limitações.
Mas podemos construir vínculos! Podemos conversar, cuidar uns dos outros, diminuir nossa exposição ao excesso de informação, recuperar alguma rotina. Podemos criar! Podemos estar presentes, participar da vida coletiva e pedir ajuda quando aquilo que estamos vivendo ultrapassa nossos recursos.
E podemos, sobretudo, “bancar” o próprio desejo.
Porque talvez o melhor dos mundos não seja acreditar que tudo vai dar certo, mas conseguir perceber que, mesmo sem garantias, ainda temos muito a construir e a compreender.
Falar de saúde mental envolve poder falar de solidão, pertencimento, vínculos, trabalho, desigualdade, infância, envelhecimento, tecnologia, futuro e da qualidade das relações que estamos construindo. E falar requer que estejamos dispostos a aprender a escutar - Escutar o outro e escutar a nós mesmos. A busca por ajuda não precisa acontecer apenas quando chegamos ao limite. Deve acontecer cada vez que, ao nos olharmos, experimentarmos certo “estranhamento”.
O trabalho clínico não é ensinar a não sofrer, mas cuidar e conduzir, para que a pessoa não se perca de si mesma diante do sofrimento.
Sobre a Autora:
Maria Alice Kita é psicóloga, com mais de 30 anos de atuação clínica.
É especializada em saúde mental e dependência química, com formação em questões de gênero e intervenção terapêutica mediada por histórias. Atualmente, estuda psicanálise e filosofia na sociedade. Ao longo de sua trajetória, atuou também na SEPRED, no tratamento da dependência química e acompanhamento dos familiares dos usuários do serviço; no Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora (SFA); em ações de integração e fortalecimento de vínculos entre equipes no Nitport e no Porto Chibatão; além de ministrar palestras na OAB, universidades, escolas e órgãos públicos.
Sua prática profissional tem como fio condutor o interesse pelas pessoas e suas histórias.





Comentários